terça-feira, 19 de abril de 2016

Qual é o significado da mata para @ Guarani?

Na terça-feira, 12 de abril de 2016, o projeto de extensão Mediações Culturais do grupo Revitalizando Culturas levou alun@s da UNISUL à Aldeia Itaty para uma vivência muito especial com @s guarani e o pessoal do Instituto Çarakura.
A vivência proposta de fazer uma trilha e compartilhar o significado das plantas para @s guarani fez parte da programação da 11ª Semana Cultural Indígena – Mbyá Yvyrupa Reko, que começou no dia 11 de abril e acabará no dia 18, com a homenagem ao Xeramõi Adão Karai.
Início da trilha do Morro dos Ancestrais:
guaranis, çarakuras e acadêmicos da UNISUL





















Aula bilíngüe – guarani-português no Morro dos Ancestrais

            @s kyringue (crianças) acompanharam o professor guarani  João Batista Gonçalves  para aprender - em guarani - o significado tradicional sobre as plantas, enquanto a professora Eunice Kerexu Yxapiry fazia a tradução em português, contando também algumas das histórias tradicionais para os juruá (não-índios). Os representantes do Instituto Çarakura contribuíram com muitas informações científicas ou sobre o uso popular das plantas na região. 
Eunice Kerexu Yxapiry e João Batista Gonçalves
Estudantes de Naturologia da Unisul

            O objetivo final da caminhada era a grande árvore sagrada AGUAÍ, cujos frutos são comestíveis e as sementes usadas em artesanatos. A árvore é uma marca dos territórios guarani. Como muitas plantas,  a AGUAÍ tem seu significado que remonta a uma história narrada pelo casal de professores guarani.






O mito de AGUAÍ.
Em busca da semente de Aguaí


Tudo começou quando a mãe do Sol e do Lua deixou de existir. Então, o Sol, como irmão mais velho cuidava do Lua, criando árvores frutíferas – como a jabuticaba - e alimentando seu irmão com o suco destas frutinhas. O Lua era bagunceiro e teimoso. Certa vez, o Sol foi atravessar um rio e seu irmão mais novo, bagunceiro, não o seguiu e perdeu o barco. Ficaram, daí em diante, separados por um rio. Onde ia o Sol, o Lua ia também, só que na outra margem do rio. Então, o irmão mais velho resolveu criar a AGUAÍ e instruiu O Lua desta maneira: asse os frutinhos, mas não jogue a semente no fogo. O Lua, teimoso, certo dia estava comendo AGUAÍ assado e jogou a semente no fogo. Bum! Aconteceu uma grande explosão e o Lua, despercebidamente foi parar na outra margem do rio, junto ao seu irmão! O Sol, sabendo de tudo, criou esta planta com este propósito de unir novamente os dois. A frutinha é amarela e redonda, a semente é no formato de meia lua.
Semente encontrada por Kerexu
            Em conversa com Eunice Kerexu. Andréia do Instituto Çarakura comenta que “as pessoas que estão numa busca, procuram ter uma visão espiritual das plantas, mas para o guarani não, isso é inerente. Nós fazemos um esforço para perceber a conexão; a gente vê o Aguaí como uma madeira boa que dá pra fazer um barco, etc. Para vocês tem outro porquê como aquela outra planta, a Mamica de Cadela que você falou lá embaixo.... Tem um por quê, porque que com ela se faz um petynguá (cachimbo). Então essa forma linda de contar - de que ela se relaciona com o sol, se relaciona com a lua, é uma visão mais holística mesmo. E uma planta está muito relacionada com a outra. Dá um significado para existência e uma conexão entre as coisas.”
Acadêmicos da Unisul e do Instituto Carakura

             Observamos que este significado profundo, holístico está presente nos estudos sobre mitos de grupos étnicos de Lévi-Strauss: “Para Lévi-Strauss, o mito parte do mundo dos sentidos: ‘o mundo que se vê, que se saboreia’. Esta forma de apreender a realidade foi a que a ciência teria tornado um tanto quanto obsoleta. Tal posicionamento se firmaria na premissa de que: “o mundo sensorial é um mundo ilusório, ao passo que o mundo real seria um mundo de propriedades matemáticas que só podem ser descobertas pelo intelecto e que estão em contradição total com o testemunho dos sentidos.” (LÉVI-STRAUSS, 1978, p. 15) O mito e o rito, escreve Lévi-Strauss, não são simples lendas fabulosas, mas uma organização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal”. (João Paulo Aprígio Moreira)

            Com estas reflexões encerramos o momento de partilha de saberes, contato com a mãe Terra e muitas risadas. Não poderia ser diferente: onde tem kyringue tem muita alegria!
Juruás agradecidos e Árvore de Aguaí

Por: Rafaela Iwassaki, extensionista do projeto Mediações Culturais
Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão, Revitalizando Culturas

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