quinta-feira, 14 de abril de 2016

Espiritualidades no timing da vida. Abril: Laura e mártires pela cidadania.

Jaci Rocha Gonçalves*

Car@ leitor@, o nome dela é Laura, do latim aurum = ouro, metal precioso. É mãe, vó e bisavó. Sua espiritualidade produz cidadania. Gira pela vizinhança todos os dias, há muitos anos, como cuidadora voluntária: faz serviços indispensáveis como dar banho nos acamados, chá de ervas, provê lar para pessoas com deficiência severa como os que encaminhou à Orionópolis Catarinense nos inícios da década de 1990.

Há cerca de vinte anos, Laura é Ministra da Eucaristia na Igreja Católica, voluntária que leva Jesus Cristo na forma de palavra amiga e de hóstia consagrada aos enfermos de sua comunidade.  Outro dia me avisou que o papa Francisco respondeu sua cartinha. No final de uma missa de domingo cantamos os parabéns pelos seus 79 anos. Um detalhe: disseram que ela se aposentara como Ministra da Eucaristia.

Mas parece que ela não ouviu direito e continua como Madre Tereza da vizinhança, acreditando que seu nome de batismo é como um mapa para seu viver: ver nas pessoas a “Laurice” de cada uma, quero dizer, sua dignidade de ouro vivo, de pérola preciosa do divino no humano. Laura talvez não saiba, mas sua presença é uma ameaça real contra cidadãos corruptos no trato das pessoas desde funcionári@s públicos de sua comunidade próxima (sejam juízes, parlamentares, executivos) até aos que manipulam consciências nos serviços de mídia, também concedidos temporariamente pelo povo.
Não vejo contradição em listar a bisa Laura com mártires e indignados éticos de abril. Em 1792, Tiradentes, seus amigos e sua filha Joaquina atualizam no Brasil os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa; os da Revolução dos Cravos de abril de 1975 que liberaram os países africanos do jugo português ou São Sepé Tiaraju, jovem líder guarani dos Sete Povos das Missões, martirizado em 1756.

O abril indígena precisa ouvir os gemidos de milhões de mártires assassinados desde a gestão do Governador Geral Mem de Sá quando expôs numa praia fluminense quilômetros de cadáveres do povo Tamoyo como forma pedagógica de dominação ou os martírios da gestão catarinense quando pagava aos bugreiros pelas orelhas dos indígenas assassinados até os 8 mil indígenas pela gestão da ditadura militar conforme a Comissão Nacional da Verdade. 

Mas a esperança não decepciona e os jovens descendentes de São Sepé sopram as brasas sob as cinzas dos tempos nas aldeias guarani de Palhoça, do litoral catarinense e com outros povos originários em inúmeros cantos do Brasil. Vizinhas de Laura e com a mesma determinação ética de Laura,  as mães guarani mantém acesa a chama da dignidade em seus filhos e dão o tom de sua cidadania Homo Serviens na aldeia Itaty ao inaugurar neste abril o Centro Cultural Tataendy Rupá, homenagem ao sábio Xeramõi Adão Karaí Tataendy Antunes cujo enterro descrevi numa de nossas crônicas, lembra-se?

As Lauras, os Tataendy Rupa, os guarani organizados resistem a um mundo corrupto não apenas na manifestação de ruas, indo ao Congresso Nacional, à Assembléia Legislativa mas produzindo cidadania ativa em si mesmos e nos espaços do cotidiano: casa, escola, posto de saúde, igreja, trabalho e festa. Desconfiam de messias salvadores da pátria e insistem repetir em si o jeito de ser Homo  Serviens como Jesus naquele abril distante quando decidiu se deixar moer com o trigo da hóstia partilhada pela Laura à sua vizinhança. 

*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo,
estudou comunicação no Vaticano e é professor da Unisul.

Texto publicado originalmente em
 Jornal Cotidiano, Edição 20, Abril de 2016.

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