quarta-feira, 18 de maio de 2016

Espiritualidades no Timing da Vida: Deusas Olímpicas, Maria e as Marias

Jaci Rocha Gonçalves*

Fato relevante de maio de 2016: a tocha olímpica. Pode ser visto como um rito de espiritualidade. Saiu de Olímpia, a cidade de deuses e deusas gregas em 27 de Abril. A tocha atualiza o mito de Prometeu quando rouba o fogo de Zeus para apoiar os humanos. O fogo olímpico foi levado por Ibrahim Al-Hussein, 27 anos, eletricista e garçom, em sua cadeira de rodas, no campo de refugiados sírios de Eleonar, periferia de Atenas. Depois, continuando o espírito olímpico, foi levada pelo refugiado afegão que tem o filho bebê no colo e uma súplica na aba do boné: “Open the bordes” – Abram as fronteiras! Os refugiados ocupam a vila olímpica, que ficou no abandono após as olimpíadas de 2004.

A tocha já percorre o Brasil desde 3 de maio, mês de ternura das mães e, na tradição cristã, a memória de Maria, mãe de Jesus. Aquela que fala de paz em português, em Fátima, animando crianças em pânico de guerra. Daí o 13 de maio, de Nossa Senhora de Fátima. Não é à toa que a tradição cristã (mas também judaica, muçulmana, chinesa e guarani) têm um xodó todo especial pela mãe de Cristo. É a única mulher com direito a um templo para reflexão entre os muçulmanos.

Em nossa realidade carente de cuidados com a vida dos mais frágeis, é consoladora a notícia dada esses dias pelo IBGE de que o nome mais comum entre as mulheres brasileiras é Maria, com 11,7 milhões de pessoas; e o segundo é Ana, nome da vó de Jesus, com 3,8 milhões. Por que a preferência?

Talvez porque, diferente das deusas do Olimpo, às Marias interessa alguém semelhante a elas, misturada no cotidiano exigente, sem perder a graça. Bem parecidas com o significado mais comum de Maria, entre cem, no original hebraico Miriam: aquela que enfrenta o mar quando o mar está brabo. Bem do jeito de Maria, de nossas mães e dos surfistas.

A garra dessas guerreiras inspiradas em Maria eu conheço muito bem pela vivência nas comunidades em quase 50 anos. Elas fazem permanente a decisiva política biocrática. São jovens aprendizes universitárias, são mães e operárias, avós e incansáveis, interferindo na participação política cotidiana, do Planalto, com a primeira presidenta da nossa história exercitando a governança até a fronteira mais distante.

Aí a tocha da olimpíada da vida não se apaga. Essas Marias que seguem a atleta da Galiléia que, grávida, enfrentou caminhos difíceis para cuidar da velha prima Isabel. Repetem na própria pele aquele jeito decidido da mulher que, de pé, estava de plantão no drama da cruz. Então, vamu q vamu cantando: “Maria, Maria é um dom, uma certa Maria, uma força que nos alerta!”

*Padre Casado, Doutor em Teologia, Filósofo, estudou
Comunicação no vaticano e é Professor da Unisul.

Publicado originalmente no 
Jornal Cotidiano Pedra Branca


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