quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Espiritualidade da Montanha V: O santo vício dos povos



Espiritualidade da Montanha V:
O santo vício dos povos

Escrito por: Jaci Rocha Gonçalves

A penúltima pergunta do sexagenário aprendiz de repórter sobre nossas missas de Primavera na Pedra Branca é se existem relatos de que os índios, em determinado tempo, procuravam sempre os morros altos, como nós temos aqui o Cambirela, a Pedra Branca. “Isso é algo da cultura deles?” Eu lhe respondo no documentário ELA que esse viés é papo para “varar” a noite jogando conversa fora.


Na verdade, parece que a riqueza de relatos sobre os montes sagrados ocupa lugar de destaque entre os povos originários de cada canto de  nosso planeta. Monte sagrado é um bom verbete para guglar e fazer seu inventário entre os povos. Talvez se conclua com a pergunta: Será que algum povo vive sem o santo vício de uma montanha sagrada?

Uma aluna curiosa de naturologia da Unisul me contava que guglou sobre o monte sagrado da Austrália que voltou a ser chamado pelo nome aborígene só a partir dos anos 80 e o povo Anangu voltou a ser seu guardião. É isso mesmo: no Extremo Oriente, os japoneses têm um xodó pelo Monte Fuji; na Ásia, o Monte Kailash é fonte de seus maiores rios e é sagrado para quatro religiões: hindus, budistas, jainistas e os tibetanos indígenas de Bön.

No Oriente Médio, os montes sagrados do Sinai, Garizin na Samaria, o Moriah de Jerusalém e o mais famoso para os cristãos: o Monte Calvário, são alguns de centenas que inspiram a tradição judaico-cristã e o islã. Os gregos têm o Olimpo e Roma as sete colinas sagradas. Esse fascínio hereditário dos povos por se inspirar e refazer na espiritualidade da montanha veio de além mar pelos nossos pedagogos açorianos, alemães, italianos, franceses, espanhóis e árabes.

Desde menino já cantávamos: “Subiremos montanhas sagradas, colinas suaves do amor cristão!”,ou, com Roberto Carlos: “Eu vou subir a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar; vou pedir que as estrelas não parem de brilhar, que as crianças não deixem de sorrir e que os homens jamais se esqueçam de agradecer!

Os nossos povos da Ameríndia, do Alaska à Terra do Fogo, passando pelas pirâmides maio-astecas, pelos mestres espirituais dos povos andinos do Alto Peru e esse baixo andino amazônico onde vivemos,  também buscavam sentidos para bem viver e conviver. Cerca de 900 povos se alimentavam da espiritualidade em seus montes sagrados.

Desde 1999, alguns alunos da Unisul tiveram um cicerone Guarani para escalar o Morro dos Ancestrais, o Morro dos Cavalos. Desde 2002, tive a graça de ver vários Karaí acompanharem jovens aqui da Universidade em Casas de Reza aos pés da Pedra Branca. Os velhos xamãs testemunham que também aqui na montanha, os seus ancestrais vinham se encontrar com Deus.

Quanto ao Cambirela, os Guaranis explicaram num dos livros didáticos que significa “seios mamados; seios de mãe”. É uma espécie de reconhecimento no próprio nome da força vital que a montanha exerce sobre os povos. Saúde plena, integradora do ser, força holística.

Se você tiver a graça de escalar a Pedra Branca nesta Primavera de 2015, com o apoio do Marquinhos, cicerone conhecido na Unisul, chegando ao topo, reze esses versos por mim, já que meus joelhos me impedem de chegar lá:

Criador dos montes, onde geras as nascentes de tantas cachoeiras e rios, ensina-nos a exigir respeito, cuidado e veneração por este e outros lugares sagrados. Agora que as máquinas poderosas do Anel Viário estão chegando, ajuda-nos a impedir mortes desnecessárias de nascentes afogadas, matas e animais destruídos e, sobretudo, de moradores antigos e indefesos. Que saibamos manter este santo vício dos povos: a espiritualidade da montanha que clama vida para todos e tudo.

Jaci Rocha Gonçalves é Padre, Doutor em Teologia,Filósofo, estudou comunicação no Vaticano e é Professor da Unisul.

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