domingo, 19 de dezembro de 2010

Marangatu faz festa: dupla cidadania

 A cachoeira jorrando água, o milharal sagrado pendoando, cheiro de Petanguá por todo o lado da aldeia Tekoá Marangatu, ontem, sexta-feira, 17 de dezembro de 2010.

Tekoá Marangatu é uma das 14 aldeias mbyá-guarani do litoral catarinense.
No salão da aldeia todo enfeitado com um enorme telão, o velho karaí Mário, o cacique Gerônimo, muitas crianças e jovens faziam um silêncio sereno.

Eu disse: - Gostaria de oferecer uma surpresa aos meus afilhados! - O senhor fale com o cerimonial lá na sala de aula, respondeu Simone. Mais tarde eu soube que era filho do professor Luís Gonzaga dos mais conhecidos docentes lutadores pela justiça e dignidade humana da  região. Acompamho sua luta há 30 anos. Agora é formando em Letras da Unisul PB.

Eduardo, guerreiro da vida guarani, passou no vestibular de Licenciatura Indígena.
Na sala, manipulando um leptop, Eduardo, filho do meu velho amigo Augusto Karaí Tataendy, selecionava um menu de músicas dos corais guarani para a festa. Eduardo é Nhemboá (professor guarani) e está vibrando sob um cocar merecido de jovem guerreiro de sua comunidade.


São quatro ava (homens) e quatro kunhá (mulheres) que se formam. O número quatro resume bem os elementos vitais da terra, como pensa o povo guarani - os quatro ventos, as quatro luas, a direções e o ar, a terra, fogo e água. Sabedoria descrita no adjaká (cesto colorido) que dona Ana, esposa do xamã, me presenteou. O imponente cesto se estrutura em quatro pontas cujo entrelaçar termina num círculo solar. De fato, o sol (kuaray, kuarany, guarany) é a força máxima para o nascer e o manter a vida.

Guerreiros/as guarani da Tekoá Marangatu com alguns convidados
Os discursos dos professores e do prefeito de Imaruí, me comoveram por dois argumentos repisados: o quanto de preconceito enfrentaram até aqui e a decisão de continuar a luta com fôlego suficiente. Floriano falou em nome dos formandos: primeiro em guarani, olhando para seu povo; depois leu algumas frases em português, bem pausadas e humoradas. "Agradecemos as professoras porque nos ensinavam com alegria. Foi muito divertido estudar. Não foi uma coisa chata!" Ficou também um compromisso: a luta pela continuidade com a criação do ensino médio e pela chegada da internet.

Dividi minha fala em três presentes: uma coleção de postais culturais cada um feitos quando os formandos eram crianças e adolescentes há 12 anos no Morro dos Cavalos - trabalho do Unisul Revitalizando Culturas e a AIMG - Associação Indígena Mbyá-Guarani; uma bola de futebol multicor, fortalecendo a alegria comunitária e a música Indio do Uruguai para que os Djuruá (não-índios) continuassem alunos dos guarani. Lembrei que o autor, o humorista Arnaud Rodrigues, falecera este ano no Rio Araguaia.

Xamã do coral faz a reza do colar protetor para o prof. Jaci.
Mas quando reparei que o nome da turma  era Sepé Tiaraju, pedi que cantessem comigo aquela parte da canção deste herói guarani: "Mais um valente guerreiro a morrer pelo seu povo; é por isso que seu nome pro nosso povo é sagrado; São Sepé subiu pro céu, sua cruz ficou no azul, cai a noite ela rebrilha, ele  é o Cruzeiro do Sul. Sepé Tiaraju!"

Depois, andei pela aldeia, brinquei como tatu e recebi a bênção do xamã, que reparto com todos vocês!
E a luta pela dupla cidadania deste povo prossegue...

2 comentários:

  1. Foi muito importante esse dia na Tekoá Marangatu. São etapas que vão sendo vencidas, são conquistas, é história. Sua participação foi fundamental. Obrigada pelo seu trabalho. Um abraço,

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